Resumo do livro Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago

“Ensaio sobre a cegueira” é um livro escrito pelo português José de Sousa Saramago e publicado pela primeira vez em 1995. José Saramago, pelo então conjunto de suas obras, fez jus ao Prêmio Camões em 1995.

O livro “Ensaio sobre a cegueira” ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998.

A obra

“Ensaio sobre a cegueira”, lançado no Brasil em 1995 pela Companhia das Letras, é uma obra que foi considerada pelo próprio autor como sendo difícil de ser escrita, realizada sob intenso sofrimento e, nas palavras do escritor, um desejo é lançado, com todas as letras: o de querer que o leitor sinta tanto sofrimento ao ler quanto ele teria sentido ao escrever.

Não demonstrando simpatias às adaptações de seus livros para o cinema, teve que reconhecer que a única adaptação que foi feita deste livro, em um filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, trouxe, nas palavras do autor, uma imensa satisfação, comparável ao momento em que acabou de escrever o livro.

José Saramago em determinados momentos pode ser igualado aos idealistas, aqueles que têm ou acreditam ter visões, como Franz Kafka e Elias Canetti.

Livro “Ensaio sobre a cegueira” e seu resumo

Os personagens de “Ensaio sobre a cegueira”

Não encontraremos nomes próprios em “Ensaio sobre a cegueira”, o personagem é apenas o ser humano. O autor não os nomeia propriamente. Ao invés disso, deixa que o leitor os identifique por suas principais características ou por suas profissões.

Assim, vamos ter: o motorista, o médico, a mulher do médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga de óculos escuros, o velho da venda preta, entre tantos.

O enredo

“Ensaio sobre a cegueira” se inicia em uma cidade, onde um motorista, parado em um sinal de trânsito é, de repente, acometido de uma cegueira repentina. Foi como se uma névoa branca, uma treva branca, tomasse conta de seus olhos.

Sem sintomas anteriores, sem aviso prévio, o homem simplesmente deixou de enxergar. Esse acontecimento se passa na primeira página do livro, podendo deixar algum leitor em choque devido à violência inesperada de seu conteúdo.

Saramago não nos diz onde isto está acontecendo, pois assim como o autor não nomeia seus personagens, também não nos localiza geograficamente e não nos dá uma referência de tempo.

A história segue falando sobre a cegueira e mostrando que o motorista foi o primeiro a ser acometido, a primeira vítima daquela que seria a mais terrível das epidemias jamais enfrentadas por aqueles que viviam na cidade.

Como se o homem se pusesse a gritar, várias outras pessoas, por sua vez, se aproximaram para ver o que poderia estar acontecendo naquela situação.

A epidemia estava apenas começando

O primeiro cego foi levado para casa por um desconhecido, um ladrão de carros que se aproveitou da cegueira de quem ele ajudava para roubar seu carro.

A mulher do primeiro cego liga para um médico oftalmologista e marca uma consulta. Sem carro, vão de táxi.

O médico que o examina, após passá-lo na frente dos que aguardavam na sala de espera do consultório, acha este caso sobre a cegueira um tanto quanto estranho pois os olhos do paciente se mostravam perfeitos, nenhuma lesão, nada que pudesse provocar esta cegueira repentina.

O médico seguiu sua vida com as consultas, pois teria ainda que atender a um rapazinho estrábico cuja mãe o estava acompanhando, o homem da venda preta, uma rapariga de óculos escuros, além de um par de pacientes.

O ladrão de carros, que é também um ser humano, começou a se arrepender do que havia feito. Na verdade, não tinha premeditado o roubo e só o fez pela oportunidade de ter o veículo em suas mãos. Parou o carro e saiu dele para arejar a mente.

Em segundos, cegou.

Agora cego, nosso personagem perdeu completamente a orientação e teve que ser levado para casa por um guarda.

A consulta da rapariga dos óculos escuros foi simples e rápida, afinal era um caso comum de conjuntivite.

Ela tinha que estar bem pois havia marcado um encontro com um homem naquela noite. Ela e seu parceiro experimentaram a cegueira juntos, naquele quarto de hotel. Sem capacidade para enxergar, foi levada para a casa dos pais por um policial.

O médico foi para casa, pesquisou sobre a cegueira, ligou para um colega de profissão, discutiram a respeito, mas nada concluíram, não havia registros em livros. Quando estava prestes a se deitar, cegou. Com cuidado para não acordar a esposa, deitou-se, mas passou a noite toda em claro.

O que deve fazer um profissional da saúde em uma situação em que a cegueira parece ser contagiante? Isso não está nos livros. Avisar as autoridades.

O dia amanheceu e ele avisou a esposa sobre a cegueira. A mulher do médico tentou consolá-lo com um abraço, mas ele se afastou temendo contagiá-la. Cego, precisou de ajuda da esposa para ligar para seu local de trabalho para tentar avisar sobre a epidemia que aparentemente se alastrava para que a sociedade pudesse ser alertada.

A cegueira do rapazinho estrábico, da rapariga dos óculos escuros e do ladrão e suas experiências com a cegueira já eram do conhecimento de todos.

Uma ambulância seria enviada para dar assistência ao médico e, ao chegar, sua esposa o acomodou no veículo e sentou-se junto a ele.

Foi informada que apenas ele deveria ir, mas, ela retrucou que iria também, pois acabara de ficar cega, argumento que usou apenas para seguir com o marido e poder ajudá-lo. Ela seria a guia e passaria a proteger os que ficaram cegos. Em nenhum momento lhes foi informado que seguiriam para o manicômio.

A segregação como ponto forte em “Ensaio sobre a cegueira”

As autoridades tiveram que fazer alguma coisa a respeito e decidiram enviar os infectados para uma instalação que, no passado, havia servido de manicômio para agora abrigar os doentes da epidemia.

O prédio foi dividido em duas alas: metade abrigaria os que já estavam cegos e, em outra parte das instalações, as pessoas que tiveram contato com eles, evitando, assim, uma forma de contágio. O lugar tinha a vocação de se tornar tenebroso.

No entanto, entre tantos cegos naquele lugar, havia uma única pessoa que conseguia enxergar. Era a mulher do médico, a única que não contraiu a doença entre tantos cegos.

Assim como Blimunda, no romance Memorial do Convento, nem sempre é conveniente que se veja tudo o que se passa ao nosso redor.

Quando chegaram, a mulher do médico o acomodou ligeiramente e saiu para reconhecer o local e, quando ela volta dando conta ao marido de que estão em um manicômio, ele percebe que ela não está cega.

O alto-falante do local dá as normas da casa e, em um discurso direto, estabelece procedimentos absurdos como enterrar no local os que viessem a falecer durante a estadia no prédio.

Brigas, discussões e tentativa de assédio sexual se seguem, provocando muita desordem e, ao não encontrar os banheiros, muitos fazem ali mesmo suas necessidades.

Todos adormecem e, no dia seguinte, a mulher do médico é quem acorda primeiro. Seu desejo é que também estivesse cega, ao ver tanta sujeira. Nada disso impediu que a rapariga dos óculos escuros mantivesse relações sexuais com o médico.

O alto-falante continua dando ordens, manda buscar a comida que está disponível, manda enterrar os mortos, manda limpar e lavar.

O caos e o colapso

O caos está prestes a ser instalado na cidade. Logo, com o contágio de todos, o colapso será iminente e as pessoas não se dão conta disso.

Bom ou não? Uma grande benção ou uma total desgraça? O quanto se pode achar bom enxergar tudo que possa estar acontecendo?

A mulher do médico, em sua fatalidade ou sorte, podia, de alguma forma, ver tudo que se passava. Pensando assim, o quanto será bom para esse ser humano assistir cães devorando cadáveres no meio da rua?

Logo, novos cegos vão chegando pelo corredor que une as duas alas do edifício, aumentando agora a população de cegos.

Realismo cruel

Saramago escreve o texto de maneira que seu romance flui com uma rapidez impressionante por entre suas páginas e, sem que possamos dar conta do tempo passado, percebemos que todos estão infectados.

A cegueira não dá trégua e vai fazendo suas vítimas mais rápido do que possamos imaginar. Evidente que a cidade não suporta uma situação como esta, muito menos o abrigo dos cegos.

Há um realismo que impressiona nas páginas nesse livro e que nos leva a pensar e refletir qual seria o papel das pessoas que realmente detêm o poder. Aquelas que têm a possibilidade de mandar, de fato, o que fariam?

Que providências poderiam ser tomadas? Tais providências focariam no bem comum, no bem-estar de todos?

Os interesses pessoais não iriam prevalecer através de escolhas e decisões egoicas? Poderiam se aproveitar da situação, como muitos governantes fazem, para auferir lucros indevidos, para resolver seus próprios problemas? O decorrer da história acabará por responder a essas perguntas e muitas mais.

Temos que lembrar que as pessoas não estavam no antigo manicômio por suas próprias vontades ou por terem sido mandadas para lá por parentes. Elas estavam abrigadas no manicômio por ordem das autoridades, sob sua responsabilidade, que pensavam em uma forma de proteger a sociedade da epidemia.

Como animais e o que podemos aprender

Ao final do livro, já não há mais dignidade. Os cegos, agora fora do manicômio, vivem em outro mundo, o mundo da desgraça, da fome, da violência, da selvageria, pois cada um deles procura sobreviver como pode.

Claro que se trata de ficção, mas o autor provoca nossa reflexão a respeito principalmente da forma como a epidemia poderia ser tratada.

As providências de isolamento seriam as mais corretas?

Aparentemente as autoridades não souberam lidar adequadamente com a situação, pois ao invés de procurarem pelo tratamento, seguiram pelo mais fácil, como se fazia antigamente: isolar os infectados e aguardar que as coisas se resolvessem por si.

Ler até o final

Se você sentir dificuldade em continuar sua leitura até o final do texto, não se preocupe, você não será o único. Pessoas têm reportado o mesmo tipo de problema. Isto quer dizer apenas que “Ensaio sobre a cegueira” foi um tipo de literatura que conseguiu trazer sua mente para a essência do livro: o sofrimento do autor, de seus personagens e do leitor.

O autor José Saramago

José Saramago nasceu em Azinhaga, interior de Portugal, um pequeno povoado da Freguesia de Goléa, em 16 de novembro de 1922, vindo a falecer em Tías, Lanzarote, Ilhas Canárias Espanholas, em 18 de junho de 2010.

Azinhaga tem 38,1 km², uma população estimada em 2010 de 1620 habitantes e fica a aproximadamente 100 quilômetros de Lisboa, a capital do país. Seu nome significa caminho rústico ou estreito, sendo derivado do Árabe, az-zinaiqâ, “rua estreita”.

José Saramago aderiu ao Partido Comunista Português em 1969 e, tendo sempre se declarado ateu, nesta condição fez publicar, em 1991, uma de suas obras mais polêmicas entre seus livros: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”.

“Ensaio sobre a cegueira” é um livro do gênero alegoria, ficção pós-apocalíptica, e a “cegueira” descrita no livro se trata de uma patologia inexistente em nossa realidade, fazendo apenas parte desta obra.

O estilo

José Saramago escreve este livro na terceira pessoa. Isto significa que o autor é onisciente, tem completo conhecimento do que se passa na narrativa, mas não participa dela.

Faz parte de seu estilo também o fato do escritor não pontuar suas frases. Ele se utiliza de um recurso literário chamado “fluxo de consciência”, não sendo o primeiro a lançar mão desta maneira de escrever. No Brasil, tivemos Graciliano Ramos, autor de Vidas Secas, que se utilizava da mesma técnica.

No livro “Ensaio sobre a cegueira”, José Saramago não dá nomes aos personagens, preferindo tratá-los por suas referências como “a mulher do médico”, “rapariga dos óculos escuros”, “primeiro cego”, entre outros.

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