Os 9 Melhores Livros de Clarice Lispector

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Uma das maiores autoras da literatura nacional, Clarice Lispector nasceu em 1920 (batizada como “Chaya Lispector”), chegando ao nosso país em decorrência da fuga empreendida por seus pais em 1922 (completando, portanto, um centenário ano que vem), que desejavam se livrar da perseguição aos povos judeus da Ucrânia.

Os melhores livros de Clarice Lispector estão repletos de mergulhos psicológicos, partindo de cenas do dia a dia.

Além dos romances, Clarice Lispector escreveu diversas contos, crônicas, passando pela redação de importantes jornais, como “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil” e “A Noite”.

Saiba mais sobre as obras de Clarice Lispector

Devido à característica psicológica e intimista do estilo literário de Clarice Lispector – para não citar sua figura enigmática e charmosa –, a autora conquistou tanto o público quanto a crítica especializada.

Muito tempo após a morte de Clarice Lispector, em 1977, ela continua sendo uma das autoras que despertam grande interesse junto aos leitores. Com a finalidade de conhecer mais sobre os livros de Clarice Lispector, continue sua leitura até o final deste artigo!

1. A hora da estrela, destaque entre os melhores livros de Clarice Lispector

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Este – “A hora da estrela” – é o último livro escrito por Clarice Lispector, tendo sido publico no mesmo ano de seu falecimento. É uma obra original e instigante, pertencendo à chamada “terceira geração modernista” e de cunho autobiográfico.

Com efeito, “A hora da estrela” (que, aliás, conta com uma recente adaptação de Suzana Amaral) é considerada uma das obras mais intimistas de Clarice Lispector (vale lembrar que a escritora se destaca, justamente, pelo seu talento na criação de romances psicológicos).

Posto que os livros de Clarice Lispector são marcados fortemente por sentimentos e emoções pessoais, o enredo de “A hora da estrela” chega aos leitores por meio do narrador-personagem Rodrigo S.M. – um escritor à beira da morte.

Enfim, durante a história de “A hora da estrela”, Rodrigo S.M. reflete os próprios sentimentos e, também, os da protagonista Macabéa. Nesse hiato, Clarice Lispector criou esta personagem como uma órfã que foi criada sob os maus tratos de sua tia.

Clarice Lispector construiu essa personagem de “A hora da estrela” como uma nordestina pobre de apenas dezenove anos, com uma constituição franzina por se alimentar, exclusivamente, de cachorro quente.

Clarice Lispector elaborou as seguintes características na história de Macabéa: taciturna, alienada, ignorante, solitária, tímida, virgem e feia. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, ela começa a trabalhar como datilógrafa.

Como resultado, ela é despedida, porém, Raimundo – seu patrão – sente pena da moça e a permite manter o emprego. Clarice Lispector ambienta a vida de Macabéa em uma pensão, na qual divide o quarto com outras 3 moças – todas balconistas da famosa loja de departamento “Americanas” – Maria José, Maria da Graça e Maria da Penha.

Uma das moças a empresa um rádio relógio e, assim, o maior prazer de Macabéa consiste em ficar ouvindo-o. Embora não seja bela, Clarice Lispector coloca um namorado no destino de sua personagem: o ambicioso metalúrgico Olímpio Chaves.

Em contrapartida, o envolvimento amoroso termina quando Olímpio é conquistado por Glória – uma moça muito mais esperta e bonita, conforme demonstrado por sua foto. Clarice Lispector se interessava pelas pessoas que “leem a sorte”, de modo que sua protagonista consulta a charlatã Madame Carlota, que se dizia cartomante.

Por outro lado, ao terminar a visita, Macabéa atravessa a rua animada pelas palavras que ouvira – até ser atropelada por um Mercedes amarelo. Esse é o momento que Clarice Lispector reservou para a foto marcante de “A hora da estrela”.

Em primeiro lugar, a intrigante personagem de Clarice Lispector passa a se sentir como uma verdadeira estrela de cinema. O livro conta com grandes doses de ironia, pois, somente na iminência de sua morte, a personagem alcança a grandeza prevista na foto de capa.

2. Laços de família

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De conformidade com o estilo presente na maioria dos livros de Clarice Lispector, “Laços de família” – uma coletânea de contos do início da década de 1960 – interliga as histórias por meio de uma foto comum: os desentendimentos familiares.

Como em outros livros de Clarice Lispector, os personagens criados são, desde sua estreia, indivíduos comuns (como os que existem em toda foto), sujeitos à banalidade da existência. A diferença é que, de uma forma ou outra, eles buscam por libertação.

Nos livros de Clarice Lispector – e nesta obra, em especial – é justamente nesse processo que surge a epifania como fusão do mundo com o “Eu”, fenômeno representado, no modernismo, pela quebra da monotonia do dia a dia por algum instante de repentina iluminação e estreia na consciência dos personagens.

Os “laços de família”, contudo, tendem a escravizar os indivíduos, impedindo-os de vivenciarem plenamente esse êxtase libertador. Então, é a rotina que enfraquece os laços de família. Contudo, ela também prende as pessoas, tornando praticamente impossível sua libertação.

Este livro também se encontra na chamada “geração de 1945”. Os escritores (majoritariamente oriundos do Rio de Janeiro) empregavam, por exemplo:

  • o fluxo de consciência (os narradores deixam seus pensamentos fluírem livremente);
  • a sondagem psicológica (com análises profundas dos estados de espírito dos personagens);
  • o emprego do monólogo interior (no qual os narradores “falam sozinhos”);
  • a pesquisa da linguagem (por meio da abolição das pontuações tradicionais e construções sintáticas);
  • a utilização da metalinguagem;
  • a anulação de limites de espaço e tempo (por exemplo, os narradores-personagens podiam se encontrar no Rio de Janeiro dos anos de 1940 e, mesmo assim, abordar qualquer lugar ou período);
  • uma postura anticonvencional.

Nesta obra, a autora reúne 13 contos – 12 narrados no tradicional estilo dos livros em “terceira pessoa”. Somente o conto “O jantar” faz uso da narrativa em primeira pessoa. Mas, em todos, a família e os seus impasses estão no cerne das histórias.

3. Perto do coração selvagem, grande história de Lispector

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O livro “Perto do coração selvagem” foi escrito em 1944. A obra mostra o dia a dia de Joana – uma menina que, por ter perdido a mãe muito cedo, é criada pelo pai. Em “Perto do coração selvagem”, Joana também perde o pai, tendo que ir viver com uma tia.

“Perto do coração selvagem” deixa claro que essa tia não gosta da protagonista, uma vez que a mera presença da menina a perturba profundamente. Para solucionar isso, a envia a um internato.

Joana, então, se apaixona por um de seus professores. Em “Perto do coração selvagem”, dias antes de ser enviada ao internato, ela acompanha sua tia às compras e gera complicações familiares quando decide furtar um livro.

Já fora desse internato, a personagem se casa com Otávio e, logo depois, engravida. Porém, a felicidade não acompanha a gravidez em “Perto do coração selvagem”: ela descobre que seu marido a trai com a ex-noiva, Lívia, que também está grávida.

Todos sabemos que o passar do tempo pode ser diferente nos livros: em pouco tempo, Joana se separa do marido. Similarmente ao que ocorre em outros livros da autora, os leitores acompanham o constante fluxo de consciência da protagonista.

Isso significa que, nos livros de Lispector, há uma busca permanente dos personagens em descobrir os motivos de suas existências. O que difere dos outros livros, porém, é que, aqui, o pano de fundo consiste no universo feminino em relação ao “eu”.

Mais tarde, Joana envolve-se com um desconhecido. De fato, o surgimento e o desaparecimento deste homem ocorrem sob circunstâncias estranhas – até mesmo para os livros deste gênero.

Desiludida, ela decide empreender uma viagem não definida e sem destino, procurando uma espécie de “resgate pessoal”. Salvo raras exceções, os livros da autora costumam trazer narrativas enigmáticas sobre a vida.

Esses livros mostram os conflitos presentes nas dualidades entre ódio e amor, mal e bem, vida e morte, evocando – em quase todos os livros – alguma espécie de crise individual.

Vale destacar que esta obra recebeu, ainda, o Prêmio de melhor romance de estreia de Clarice, da Fundação Graça Aranha.

4. Água viva

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A obra “Água viva” é mais um dos livros (de 1973) que se enquadram na literatura modernista brasileira. Acima de tudo, durante os anos de 1945 e 1960, os livros do gênero passaram a refletir o novo momento de desenvolvimento econômico, com o surgimento de tendências culturais e artísticas bastante originais.

Desde a perspectiva dos livros lançados, esse período foi representado, majoritariamente, pela prosa – ocasião propícia para o estilo intimista de Lispector, com livros caracterizados pela sondagem psicológica de seus personagens.

Ao lado de Lispector, é preciso ressaltar os livros de Antônio Ovalo Pereira e Lygia Fagundes Telles, por explorarem diversos aspectos que, também, aparecem em “Água viva”.

A obra “Água viva” tem sido definida pela crítica como um poema em prosa fluente e denso. Na poesia de “Água viva”, a autora aborda o sentido da vida – o que não surpreendeu os que já estavam habituados a essa temática.

Em muitas ocasiões, a autora (que já tinha sido homenageada com o Prêmio Golfinho de Ouro) revela a si mesma, provocando uma imediata identificação com os leitores, a partir das reflexões, questionamentos, conflitos e perguntas existentes na obra.

5. A descoberta do mundo, uma excelente leitura

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O livro “A descoberta do mundo” consiste em uma reunião de 468 crônicas originalmente publicados no “Jornal do Brasil”, de 1967 a 1973. Por certo, “A descoberta do mundo” organiza estes escritos em ordem cronológica, abordando diversos temas, sob o prisma de alguém que observa, pela primeira vez, o mundo.

O público de “A descoberta do mundo” é levado a reflexões acerca do ato de escrever e conhece esboços de contos. Ao lutar contra algo muito temido por todos que chegam à vida adulta – tornar públicos alguns aspectos de sua própria intimidade – a autora aceitou a tarefa de escrever semanalmente para o jornal.

Em princípio, a escritora submeteu-se ao exercício de produzir novos conteúdos a cada 7 dias. Essa pressão conferiu ao conjunto da obra da escritora um teor autobiográfico.

O livro, portanto, traz momentos tocantes vinculados às memórias da escritora na cidade de Recife e Maceió, desencontros e encontros com os amigos, traços de suas relações familiares, filmes e livros que apreciava e, ainda, figuras marcantes para a escritora, como sua funcionária Aninha.

A saber, em nenhum de seus textos, a escritora se limita aos aspectos factuais. Só para ilustrar, um acontecimento doméstico, o impacto das tecnologias no cotidiano ou, até mesmo, os fatos que ocorrem em quarto de serviço, servem como condutores para questionamentos sociais e reflexões existenciais.

Mas, em algumas ocasiões, suas críticas são diretas (como nas oportunidades em que aborda a questão educacional, afirmando que é um “crime” impedir a entrada de jovens nas universidades).

Aliás, outro aspecto fundamental de suas obras – plenamente revelada nesse livro – é a sua “veia humorística”, manifestada em diversos matizes. Lispector capta os elementos tragicômicos do dia a dia, recorrendo à ironia sutil, ao provocativo humor negro e, também, ao demolidor humor judaico – voltando-o, neste caso, contra si própria.

6. A maçã no escuro

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Em “A maçã no escuro”, Lispector narra a história de um personagem que foge após cometer um crime. Seu nome é Martim. Em meio à sua fuga, é acometido por várias reflexões filosóficas acerca do hinduísmo e do existencialismo.

Inesperadamente, “A maçã no escuro” é apresentado em 3 partes: “Como se faz um homem”; “Nascimento do herói” e, por fim, “A maçã no escuro”.

Na primeira, cada personagem aparece diante do público por meio de sua mente, sua consciência.

Tal mergulho na mentalidade dos personagens de “A maçã no escuro” é mantido ao longo das outras partes – elemento característico de nossa autora. As figuras centrais dessas obras que se interligam são Ermelinda, Vitória e Martim.

Em todas as obras, Lispector propicia a aproximação entre personagens e público, de modo que estes acompanhem o que ocorre nas mentes daqueles – ainda que seja algo quase incompreensível.

Nessa história – como em outras obras – a busca pelo sentido da vida se faz presente. Porém, nem todas as obras apresentam narrativas tão densas e complexas. Aqui, conhecemos a história de uma pessoa cansada de sua própria vida e da convivência em sociedade.

Parte, então, como as criações de outras obras de Lispector, para uma jornada cujo ápice é a recriação de si. Se você está habituado à dinâmica de heróis da literatura infantil, ficará surpreso: neste livro, o personagem entra em crise, assassina a esposa, foge para a mata e fica vagueando.

A dualidade entre bem e mal, tão comum nos livros infantis, é destroçada pela autora. Afinal, esse assassino tenta recomeçar sua vida, de tal sorte que podemos acompanhar todos os seus raciocínios, conclusões e reflexões.

Por falar em literatura infantil, o personagem principal enceta um diálogo com 2 mulheres, ambas com certas características que remetem os leitores, justamente, aos elementos presentes na forma de pensar da chamada “dona de casa”.

Uma delas tem medo de morrer, enquanto a outra receia a vida. O diálogo – distante do que ocorre no ponto de vista do senso comum – é uma enorme metáfora, repleta de questionamentos e perguntas que perpassam a existência humana.

Não por acaso, a obra foi agraciada com o Prêmio Carmem Dolores Barbosa.

7. A paixão segundo G.H., clássico dentre os melhores da escritora

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Frequentemente comparada às obras de Virginia Woolf, “A paixão segundo G.H.” foi publicado originalmente em 1964. O recurso aos fluxos de consciência permeia, tal como em outras obras de Lispector, todo este livro.

Dessa maneira, “A paixão segundo G.H.” transmite ao público as preocupações e emoções da bem-sucedida G.H., uma mulher profissionalmente bem-sucedida, mas que não conhece a própria identidade, partindo em busca de maior conhecimento interior.

Um dos fatores mais curiosos de “A paixão segundo G.H.” pode ser encontrado no fato de que a protagonista não tem um nome – o que faz se identificar com praticamente todos os seres.

O livro conta com um enredo aparentemente banal e que, de certo modo, engana que se deixa levar pela palavra “paixão” do título: a demissão de uma empregada doméstica que leva a patroa a faxinar o quarto da ex-funcionária, no qual encontra uma barata.

Esse instante do livro propicia um momento de reflexão existencial e profunda – a paixão. Pois, no livro, ao encarar e ver a barata, esmagá-la e – pasmem – comê-la, a personagem encontra, finalmente, sua verdadeira motivação para estar no mundo.

G.H. resolve, 6 meses depois de demitir a empregada, arrumar o antigo quarto em que a trabalhadora dormia. O livro conta que, ao adentrar o recinto, ela descobre, com paixão, a profundidade de seu vazio interior.

Aflita, ela busca algo para fazer, mas no livro fica claro que não há nada que a traga paixão. Então, o livro surpreende mais uma vez: uma barata sai de um armário, evocando a consciência de sua solidão.

O nojo pela barata é descrito na obra, porém, G.H. precisa enfrentar, tocar e, por fim, provar o gosto do inseto. Ao ler a obra, acompanhamos a náusea violenta que a toma, representando a angústia que precede os momentos de revelação, resultando na dolorosa conscientização da fragilidade inerente à condição humana.

A crítica especializada encontra algumas semelhanças com a obra de James Joyce, sobretudo quando a personagem tentar reativar seus instintos primitivos, experimentando o sabor da barata.

8. Minhas queridas

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Esta verdadeira obra-prima da literatura nacional permite conhecer melhor a intimidade de uma autora fascinante que, inclusive, atuou como jornalista.

“Minhas queridas” descerra a cortina enigmática que a sociedade em geral (e a literatura, em particular) encerra sobre as mulheres.

Teresa Montero é a jornalista e biógrafa encarregada por organizar as correspondências – que, na época, eram entregues exclusivamente pela agência nacional de correios – trocadas entre Lispector e as suas irmãs Elisa e Tânia.

Os primeiros dias de casamento da escritora são retratados (de 1944 a 1959) de um modo bem brasileiro (diferentemente do que seria adotado, por exemplo, por algum jornalista), mostrando as características de seu esposo, Maury Valente (considerando tanto a publicidade quanto a importância do cargo em suas viagens como diplomata) e as idas e vindas de um atípico casal de classe média.

À medida que boa parte do livro conta com os escritos das irmãs de Clarice, é mais conveniente considerar essa obra como o resultado da atividade de três escritoras, que não imaginavam que essas linhas chegariam à publicidade. Sendo assim, essas escritoras demonstram um cotidiano repleto de saudades e ansioso por notícias.

Trata-se de uma excelente forma de conhecer mais de perto (sem depender de ações de publicidade) a vida cotidiana de um dos maiores nomes da literatura brasileira. Clarice dá vida a certos fatos conhecidos da história, tais como a segunda grande guerra.

Ao ler, você descobrirá, ainda, outras facetas da vida de Clarice Lispector que não constam na publicidade tradicional a seu respeito – a grande escritora, irmã, esposa e mãe. Como brasileira, ela sentiu muitas saudades durante o tempo que passou no exterior, extravasando nas cartas todos os seus medos, angústia e solidão.

Desse modo, a autora se aproxima – especialmente, da leitora brasileira – ao longo dessas páginas, convidando todos a refletirem sobre o que sentimos e quem realmente somos. Esses fatores conferem grande publicidade às suas obras.

Além de acompanhar os contextos nos quais a escritora produziu seus primeiros romances, as cartas pontuam o universo artístico – grande ponto de inspiração em seu tempo no estrangeiro.

Isso inclui, além dos romances de outros autores, as músicas de Vicente Paiva, Carmen Miranda, Beethoven e Chopin. Em uma das cartas, Clarice relata ter lido o romance “O amante de Lady Chaterley”, cujo autor é D.H. Lawrence.

Em outra epístola, revela suas impressões sobre a filosofia existencialista (cada romance inspirado nela). Existem, também, suas impressões de viagens, permeadas por observações que, em um romance comum, soariam desconcertantes.

Aproveite para ler também:

  • Clarice Lispector, brasileira de coração: conheça sua obra e vida (clique aqui)
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  • Os 29 Melhores Livros Brasileiros: Obras Importantíssimas na Literatura do Brasil (clique aqui)

9. Felicidade clandestina, encerrando a lista com chave de ouro

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O romance “Felicidade clandestina”, de 1971, promove a reunião de vários textos de Lispector – escritos em variadas fases de sua vida. Ou seja, o romance surge pela articulação de escritos esparsos (que podem ser categorizados – mais precisamente – como “contos”).

Todavia, como a autora nunca se prendeu à convenção de gêneros – elemento que marca cada romance que produziu – o conjunto de “Felicidade clandestina” realiza uma verdadeira migração de gêneros.

Isto é, ora o romance se aproxima dos contos, ora das crônicas e, em algumas ocasiões, o romance assemelha-se a um ensaio. Com efeito, muitos dos textos abordam a temática “família”, sendo publicados periodicamente durante o período de 1967 a 1972.

Na totalidade, a obra reúne vinte e cinco contos de temas variados, além do já mencionado, como questões da alma, o amor, a adolescência e a infância. Sua leitura deixa uma forte impressão autobiográfica.

Efetivamente, a leitura dos contos nos mostra recordações infantis de Lispector em Recife, pessoas que marcaram o seu passado e sua transição para a idade adulta no Brasil.

Por meio da recordação de infância dessa mulher genuína, “Felicidade clandestina” funciona, também, como uma espécie de investigação psicológica e autoanálise.

A representação dos processos mentais de cada homem e mulher (incluindo alguns períodos de infância) que a autora constrói é uma de suas melhores técnicas.

Sua narrativa não se prende a estruturas sequenciais, e o pensamento da mulher que gravou para sempre o seu nome na literatura nacional flui livremente.

Nem mesmo a aclamada biografia de Lispector, escrita pelo genial Benjamin Moser, traz ao público uma narrativa dotada de uma sensação tão intensa de intimidade com a autora.

Durante a história, o autor parece não controlar nenhuma personagem, deixando-a entregue a divagações e pensamentos “próprios”.